Uma vida só
Novos rumos, pousos e crônicas.
Novo rumo. Linha d’água. Paraíso. Iara. Sonho meu. Observava os nomes dos barcos enquanto passeava pelas águas de Paraty, numa viagem que me fez conhecer Paraty-Mirim e mergulhar nas belas praias da região do Saco do Mamanguá. Sentada na areia onde foram filmadas cenas de “Crepúsculo”, tomando vinho branco (quem disse que a vida é só perrengue?), olhei para o barco chamado “Uma vida só”.
De cara liguei o nome àquele momento de férias: uma vida só, temos que aproveitá-la, seguir a máxima das estampas dos bonés da moda ou das legendas de fotos no instagram: viciada em viver. E tive o privilégio de me sentir assim, aproveitando bem os dias, sem nada que reduzisse a tranquilidade, com exceção do meu medo de mar, somado ao fato de eu não saber nadar. Mas até isso perdeu força diante daquele lugar em que ouvíamos poucos sons além dos de ondas fracas se aproximando de nossos pés.
Antes de outros chegarem, o barco protagonizava um espaço na beira d’água, ancorado ao lado de um siri virado de cabeça pra baixo, morto. Acho que eu nunca tinha visto um siri morto, uma pata dobrada, a outra esticada, sozinho ali na areia. A solidão também vinha embutida naquele nome: uma vida só. Combinava mais com a embarcação, isolada à minha frente, sem parecer se importar com minha presença em seu habitat. Desacompanhado, solitário, desamparado. Curioso como essas palavras costumam remeter à tristeza, à morbidez, ao lamento por quem vive só, aquela coisa de cantar “é impossível ser feliz sozinho”.
E lá estava o barco, ostentando que se bastava, que gostava de levar a vida assim, acompanhada do adjetivo, e não do advérbio, “só”. Ficava parado, sentindo as pequenas ondas, o vento passando sem pressa, o nó que comportava para ter sido fincado, e quem sabe tenha reparado também no siri de cabeça pra baixo, já sem vida alguma, diferentemente dele. Por vezes deve pousar um passarinho na proa ou no convés, depois acionar as asas se sentir o barco cambaleando, tudo se agitando quando o mar demanda.
Terminei o vinho sob a sombra das árvores, sem pensar em nada do que escrevo agora. Estava como o passarinho que pousa na proa ou no convés, observando a beleza do mundo à minha frente, pintado de azul, verde, ocre. A crônica só nasceu mesmo depois, quando estava eu já imersa na inquietude da vida, que requer da gente movimentação exagerada.
Ainda assim, lá eu cheguei a pensar na escrita, desconfiada de que algo dali viraria um conjunto anotado de palavras. Deve ser por ter uma vida só que cronistas, em geral bastante atentos, acabam se espantando com tanta coisa, inclusive e sobretudo com o nada. Lembro que o barqueiro avisou que uma tartaruga marinha passou perto de mim, mas, distraída, acabei não vendo.

